quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Refrear a Gula é uma das maneiras de vencer tentações contra a PUREZA

Por Santo Afonso de Ligório


Quanto à mortificação do paladar, será bom desenvolver mais a fundo a necessidade, como a maneira de nos mortificarmos nesse sentido.

1. S. André Avelino diz que quem deseja alcançar a perfeição deve começar com uma séria mortificação do gosto. Antes dele já o afirmara S. Gregorio (Mor., 1,30, c.26): "Para se poder dispor para o combate espiritual, deve-se reprimir a gula." O comer, porém, satisfaz necessariamente ao paladar: não nos será, pois, lícito comer coisa alguma? Certamente devemos comer: Deus mesmo quer que, por esse meio, conservemos a vida do corpo para o servirmos enquanto nos permite ficar no mundo. Devemos, porém cuidar de nosso corpo do mesmo modo, diz o Pe. Vicente Carafa, como o faria um rei poderoso com um animal que ele, com as próprias mãos, tivesse de almofaçar mais vezes durante o dia; seguramente cumpriria o seu dever: mas, como? Contrariado e desgostoso e o mais depressa possível. "Deve-se comer para viver, diz S. Francisco de Sales, e não viver para comer."

Parece, contudo, que muitos vivem só para comer, como os irracionais. O homem assemelha-se ao animal, diz S. Bernardo, e deixa de ser espiritual e racional se ele gosta da comida como o animal. Assim assemelhou-se aos animais o infeliz Adão, comendo do fruto proibido. (...) Como é triste ver homens "cujo Deus é o ventre" (Filip 3,19). 

Tomemos cuidado para que não sejamos subjugados por esse vício animal. É verdade que nos devemos alimentar para conservação da vida, diz S. Agostinho; mas devem-se tomar os alimentos como os remédios, isto é, só quanto necessário e nada mais. A intemperança no comer prejudica a alma e o corpo. Quanto ao corpo é fora de dúvida que grande número de doenças provém desse vício; apoplexia, dor de cabeça, dores de estômago e outros males provém muitas vezes do muito comer. As doenças do corpo, porém, são o menor mal; um mal muito pior são as doenças da alma que disso se originam.

Primeiramente obscurece esse vício o entendimento, como ensina S. Tomás, e o torna imprestável para os exercícios espirituais, particularmente para a oração. Como o jejum dispõe a alma para a meditação de Deus e dos bens eternos, assim a intemperança a retrai disso. Segundo S. João Crisóstomo, aquele que enche o estômago com comidas é semelhante a um navio muito carregado, que apenas se pode mover do lugar; ele se acha em grande perigo de afundar, se uma tempestade de tentações lhe advém. 

Além disso, quem concede toda a liberdade a seu paladar, facilmente estenderá liberdade aos outros sentidos; pois, se o recolhimento de espírito desapareceu, facilmente se cometem ainda outras faltas por palavras e obras. O pior é que, pela intemperança no comer e beber, expõe-se a castidade a um grande perigo. "Excessiva saciedade produz lascívia", diz S. Jerônimo (Adv. Jovin., 1,2). E Cassiano afirma que é simplesmente impossível ficar livre de tentações impuras, enchendo-se o estômago com comidas.

Os Santos, justamente porque queriam conservar a castidade, eram tão rigorosos na mortificação do gosto. "Se o demônio é vencido nas tentações à intemperança, diz o Doutor Angélico, não continua a nos tentar à impureza"

Os que cuidam em mortificar o paladar fazem contínuos progressos na vida espiritual. Adquirem mais facilidade em mortificar os outros sentidos e em praticar as outras virtudes. Pelo jejum, assim se exprime a Santa Igreja em suas orações, concede o Senhor à nossa alma a força de superar os vícios, de se elevar acima das coisas terrenas, de praticar a virtude e adquirir merecimentos infinitos (Praef. Quadrag.).

Os homens sensuais objetam que Deus criou os alimentos para que nos utilizemos deles. Mas os cristãos fervorosos são da opinião do venerável P. Vicente Carafa, que diz, como notamos acima, que Deus nos deu as coisas deste mundo não só para nosso gozo, mas também para que tivéssemos ocasião de lhe fazer um sacrifício. Quem é dado a gulodice e não se esforça por se mortificar nesse ponto, nunca fará um notável progresso na vida interior. Regularmente se come muitas vezes durante o dia; quem, pois, não procura mortificar o desejo de comer, cometerá cotidianamente muitas faltas. 

2. Vejamos agora o modo como devemos mortificar o nosso paladar.


a) Quanto à qualidade das comidas, diz S. Boaventura que não se devem escolher comidas esquisitas, mas contentar-se com pratos simples. Segundo o mesmo Santo, é sinal de alguém estar muito atrasado na vida espiritual não ficar contente com as comidas que se lhes apresentem e desejar outras que agradam mais ao paladar, ou requerer que sejam preparadas de um modo particular. Mui diversamente procede quem é mortificado: contenta-se com o que se lhe dá e se diferentes pratos são trazidos, certamente escolherá aqueles que menos satisfazem ao paladar, contanto que não lhe façam mal.

É muito recomendável, privar-se por mortificação, de temperos desnecessários, que só servem para lisonjear o paladar. O tempero de que usavam os santos era a cinza e o absinto. Não exijo de ti, alma cristã tais mortificações, nem tampouco muitos jejuns extraordinários. Como não vives unicamente para ti, em uma solidão, mas na sociedade, com outros homens, deves geralmente evitar tudo o que dá na vista, segundo o conselho de Cassiano, porque isso é perigoso para a humildade. "Quando se está à mesa em companhia dos outros, dizia S. Filipe Néri, deve-se comer de tudo". Por isso dizia aos membros de sua congregação: "Fugi da singularidade como de uma fonte de orgulho de espírito."

De resto, quem é animado pelo espírito da mortificação, acha facilmente meio de se mortificar sem que se note externamente. S. João Clímaco comia de tudo o que se lhe servia, mas provava apenas cada prato, e, assim praticava a mortificação sem perigo para sua humildade.

Não sou, de forma alguma, contrário a que jejues com todo o rigor em certos dias particulares, como na sexta feira ou no sábado ou nas vésperas das festas de Nosso Senhor ou em dias semelhantes, pois isso costumam fazer os cristãos verdadeiramente piedosos. Se, porém, não possuis tanta piedade ou se tuas enfermidades não te permitem guardar rigorosos jejuns, deves ao menos te contentar com o que te servirem e não te queixar das comidas.

b) Quanto a quantidade das comidas, diz S. Boaventura: "Não deves comer mais, nem mais vezes do que é necessário para sustentar e não para agravar teu corpo". Por isso é uma regra, para todos os que querem levar uma vida devota, não comer nunca até a saciedade, como S. Jerônimo aconselhava a Eustoquium, escrevendo-lhe: "Sê sóbria no comer e nunca enchas o estômago". Alguns jejum num dia e comem demais no dia seguinte; é melhor, segundo S. Jerônimo, tomar regularmente a alimentação necessária, do que comer demasiadamente depois do jejum. Com razão dizia um Padre do deserto: "Quem come mais vezes, tendo, apesar disso, sempre fome receberá uma recompensa maior do que aquele que come raras vezes, mas até a saciedade.

Se alguém quer reduzir seu sustento à justa medida, convém que o faça pouco a pouco, até que conheça pela experiência até onde pode ir na mortificação sem se causar sensível dano.

Para se livrar, porém de toda a dúvida e inquietação a respeito do jejum e das privações, deve-se sujeitar ao parecer de seu diretor espiritual. Segundo S. Bento e S. Bernardo, as mortificações que praticamos, sem a permissão de nosso diretor espiritual, são antes atos de uma temeridade condenável do que obras meritórias. Contudo todos devem tomar como regra o comer pouco à noite, mesmo quando lhes parecer que necessitam de mais; a fome de noite é, muitas vezes, só aparente e se passa um pouco só da justa medida, sente-se muito incômodo na manhã seguinte: sente-se dor de cabeça, dores de estômago, está-se indisposto e até incapaz de qualquer trabalho espiritual. (...).

Quanto à medida que se deve guardar no beber, sem perigo algum para tua saúde, podes te impor a mortificação de nada beberes fora da refeição, a não ser no caso que devas ceder a um especial impulso da natureza, para não te causares algum dano, como pode acontecer no verão. S. Lourenço Justiniano, porém, nunca bebia coisa alguma fora da refeição, mesmo nos dias de maior calor, e quando se lhe perguntava como podia suportar a sede, respondia: "Como poderei suportar as chamas do purgatório, se não puder suportar agora esta privação?"

Referindo-se ao vinho, diz a Sagrada escritura: "Não dês vinho aos reis" (Prov. 31,4). Sob essa expressão de reis não se entendem os que reinam sobre nações, mas todos os homens que domam suas paixões e as submetem à razão. Infelizes daqueles que são dados ao vício da embriaguez, diz a Sagrada Escritura (Prov. 23, 29). E por quê? Porque o vinho torna o homem luxurioso (Prov 20, 1). Por isso escreveu S. Jerônimo à virgem Eustoquium: "Se quiseres permanecer pura, como deve ser uma esposa de Jesus Cristo, evita o vinho como veneno: vinho e mocidade são duas iscas que inflamam o desejo para os prazeres proibidos" (Ep. 22 ad Eust.). 

De tudo isso devemos deduzir que aqueles que não possuem virtude ou saúde suficiente para renunciar por completo ao vinho, devem ao menos servir-se dele com grande sobriedade, para não serem atormentados por mui fortes tentações impuras. 

c) Sobre a questão quando e como se deve comer, S. Boaventura nos ensina o seguinte: Primeiro, não se deve comer fora de hora, isto é, fora da hora da refeição comum. Um penitente de S. Felipe Néri tinha esse defeito. O Santo o corrigiu com as palavras: "Meu filho, se não te emendares dessa falta, nunca chegarás a ter uma vida espiritual."

Segundo, nunca se deve comer desregradamente, isto é, com avidez, por exemplo, enchendo a boca demais, com tal pressa, que antes de se engolir um bocado já se leva outro à boca. "Não sejas glutão em banquete algum" (Ecli 37,22), diz-nos o Espírito Santo. Além disso, devemos tomar os alimentos com a boa intenção de conservar as forças do corpo, para podermos servir ao Senhor. 

A justa medida no comer exclui também um jejum imoderado, pelo qual se torna incapaz de cumprir com seus deveres de estado. Cometem muitas vezes essa falta dos principiantes; levados por aquele zelo sensível que Deus costuma conceder-lhes no princípio, para animá-los no caminho da perfeição, impõe-se privações e jejuns excessivos, que tem por resultado transtornar-lhes a saúde e fazê-los abandonar tudo. O patrão que entrega seu cavalo a um criado para que o trate, certamente o repreenderá não só se nada der ao cavalo, como se der demais, pois o dono não se poderá utilizar dele quando quiser. "Uma temperança constante e regrada, diz S. Francisco de Sales é melhor que um rigoroso jejum de vez em quando, no qual se faz seguir uma falta de mortificação" (Philoth. P. 3, C.23). 

Um tal jejum também nos expõe ao perigo de nos julgarmos mais piedosos do que aqueles que não nos imitam no jejum. De um lado, pois, devemos nos precaver do que diz um grande mestre na vida espiritual, a saber, que o espírito raramente nos leva a excedermo-nos na mortificação, ao passo que o corpo muitas vezes nos induz a uma falsa compaixão e faz que o eximamos daquilo que o desagrada. [grifos nossos].

Livro: Escola da Perfeição Cristã, Santo Afonso Maria de Ligório. Cap. IX; Parte V; Pag. 243.

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